| |
Quando
o senhor começou a trabalhar com arte?
Minha
mãe conta que ela também brincava com barro em criança,
mas o único na família que fez dele o seu caminho de
vida fui eu. Com cinco anos eu já brincava com barro. Naquele
tempo eu já me preocupava em dar movimento aos objetos que
modelava. Utilizava até formigas para conseguir o que desejava.
Contudo um dia imaginei que para conseguir movimentar meus bonecos
de forma perfeita teria que usar sangue, acreditava que era ele que
fazia os seres vivos se movimentarem. Tinha uns sete anos nessa época.
Consegui sangue de um frango e coloquei na forma do boneco. No dia
seguinte, para minha decepção, o barro havia apodrecido.
Meu pai me explicou então que para eu conseguir o que queria
teria que utilizar um motor. Naquele tempo conseguir um motor era
muito difícil porque quase tudo era manual, mesmo as ferramentas.
Então eu comecei a observar todas os maquinismos que podia,
sendo que até hoje faço isso. Dessa forma consegui fazer
minhas cenas animadas.
Na
primeira exposição, aqui em Niterói mesmo, já
coloquei uns dois ou três objetos que se movimentavam. Todos
gostaram muito, decidi então que dali em diante ia procurar
explorar sempre o movimento em minhas peças.

Como
o senhor faz os movimentos das suas peças?
Atualmente,
eu faço dois tipos de máquinas: uma funciona como um
piano e a outra com manivelas e engrenagens, mas, geralmente, utilizo
um ou mais motores elétricos para mexer o conjunto. Geralmente,
utilizo um ou mais motores elétricos para mexer o conjunto.
É bastante difícil coordenar o movimento. Para que todas
as peças se mexam no tempo certo calculo as distâncias,
o ângulo de rotação, etc. São inúmeros
fios de nylon e tudo tem de ser bem calculado. As escolas de samba,
por exemplo, podem chegar a utilizar seis máquinas. Cada escola
de samba que preparo tem muitos figurantes com diferentes fantasias
e os enredos são sempre diferentes. Essa que estou montando
é "O BRASIL DE NORTE A SUL" (Atualmente em exposição
na Fondation Cartier pour l'Art Contemporaine de Paris, na
mostra "Un art populaire"). Elas também têm
som pois coloco um aparelho de som transmitindo o samba. Há
casos em que eu tenho que fazer as engrenagens. Elas são modeladas
em barro, depois em resina e só depois mando moldá-las
em metal. Às vezes todo o trabalho é jogado fora por
excesso de barulho.

Todas
as suas peças são de barro?
Gosto
de trabalhar com barro mas se forem maiores tenho que fazê-las
em resina por causa do peso. As peças até 15 cm são
de barro . Sempre estou a procura de outras massas de modelar. Até
inventei uma consertando um armário. Misturei serragem bem
peneirada, farinha de trigo e coloquei uma poção de
coisas, até talco, mas é aquele talco que faz massa
de polimento de automóveis. É uma massa bem fininha
e bem resistente, já deixei uma peça dois meses dentro
d'água e ela não amoleceu. Então eu passei a
fazer algumas peças com ela.


Como
o senhor alcançou o sucesso?
Meu
trabalho começou a aparecer depois que uma jornalista de um
jornal fluminense divulgou-o Logo muitas pessoas vieram vê-lo
e algumas me ajudaram muito, entre elas, a professora Cássia
Frade, Amélia Zaluar e Jacques Van de Beuque. Este último,
o criador da Casa do Pontal, foi um grande incentivador, sempre valorizou
muito tudo o que eu fazia, colocando minhas peças em exposições
no mundo inteiro. Trabalhei com ele durante trinta anos e ele dizia
que o sucesso era as minhas cenas animadas. Quando fiz aquele conjunto
muito conhecido, que esteve no Centro Cultural Banco do Brasil, por
exemplo, foi ele que me sugeriu algo relacionado a dinheiro e eu então
montei a Serra Pelada. Ele me trazia o tema e eu desenvolvia, quando
eu terminava, ele ficava naquela alegria. E eu também.
O
senhor consegue viver do seu trabalho?
O
primeiro trabalho que eu fiz e que vendi, embora muitos anos depois,
foi um São Jorge, para uma professora aqui de Niterói.
Antes eu vendia mais trabalhos, mas agora com a crise financeira que
o Brasil atravessa, está mais difícil, mas ainda aparecem
em minha casa muitas pessoas querendo comprá-los. Recebo muitas
encomendas.Tenho trabalhos espalhados pelo mundo todo.

Na
verdade, é a vontade de sentir essa alegria que me faz trabalhar,
independentemente de retorno financeiro ou não, o que eu quero
mesmo é ver os meus bonecos sempre mais perfeitos, me superar
a cada conjunto. Eu os faço para mim, depois eu mostro as pessoas,
mas o que gosto mesmo é de sentir aquela satisfação
que se repete durante todo processo de criação e a ansiedade
de imaginar o trabalho pronto, seguida pela imensa alegria de sua conclusão.
Participaram
dessa entrevista: Lourdes Ferreira, Lúcia Calvert e Regina
Célia Pinto
|
|
----------------
 |
|